SANTERIA em NOMADE
NOMADE já anuncia em seu vulgo o que veio dizer em seu primeiro lançamento solo. SANTERIA foi escrita num momento em que Ana Beatriz estava saindo do interior para ir morar em Salvador, em meio às missões de sobrevivência e a sede de viver de arte. A MC sai do interior baiano e circula entre a capital e outros municípios, numa andança que forma sua percepção de mundo e que é expresso em 3 faixas carregadas do DNA da rua.
É a narrativa das suas vivências através do graffiti em Salvador, e SANTERIA carrega muito desse processo de andança e de adaptação ao fluxo da capital, ao fluxo da fome, do trampo mal remunerado, de pegar três ônibus para ir trabalhar para ganhar 50 reais por dia, às vezes não conseguir comer e voltar para casa passando mal. Além de narrar a paisagem e imagens que se formam na memória escrita da MC.
NOMADE apresenta faixa a faixa do EP SANTERIA da seguinte forma:
A faixa 1, “us meninos”, eu escrevi quando estava morando no Alto das Pombas. E basicamente para mim é essa vista do horizonte, essa poesia baseada nas noites, nas coisas que eu via e ouvia. Eu acho que isso resume bastante a fé dos meninos, sabe? Que ocorre mesmo noturno, na função da noite.
“manga bronx” fala um pouco de um período que eu precisei sair da capital para conseguir comer melhor, dormir melhor, e ter um certo apoio voltando para esse aconchego do interior. E aí eu fui morar em Feira, na Mangabeira. E fala muito da minha vivência com a Alika (Dama de Copas), esse resgate que a gente faz uma pela outra.
A gente tem um coletivo Pomba Suja, que é um laço de irmandade mesmo, de comunhão, e conta essas histórias que a gente compartilha, essas memórias, essa ligação em comum. É como se fosse uma conversa nossa, rodando pelo bairro, envolvendo a nossa fé, as nossas saudades.
E “lama”, eu escrevi ela saindo do trampo. E esse foi o dia que eu tive mais fome da minha vida. Eu lembro de estar subindo a ladeira e sentir a sensação de vazio mesmo na barriga, tá ligado? Nessa época eu estava trampando, eu saia de Cajazeiras para ir para Gamboa. E ganhava 40 reais por dia.
E nem sempre eu recebia no dia que eu saía para trampar, então às vezes não dava para comer, tá ligado? Na maioria das vezes eu tinha ajuda da minha mãe, de algum amigo. E aí foi esse momento de transição, assim, muito pesado mesmo. Um momento onde eu queria muito ser amada, onde eu me conectei muito com as forças da lama mesmo, de formar o barro, de reconstruir. E meio que de me reconstruir e encontrar Deus, né? Encontrar a formação básica para todas as coisas, e a paciência também.
A paciência para lidar com as minhas próprias chagas, com as minhas próprias escolhas. E com a luta que é sair da roça para vir para a capital, tentar viver de arte. Eu acho que isso tudo para mim resume a minha vivência no hip hop como obrigação, como parte natural de mim, sabe? Eu nunca vi o hip hop como algo alheio, como algo que eu escolhesse estar nesse ambiente.
Hoje ele virou o meu trabalho. Virou o que me sustenta, o que coloca comida na minha mesa. Então, essa busca pela rua, esse estar na rua e ela me consumir.
Hoje eu consumo ela de volta também. E a gente vai se consumindo. E é isso.
SANTERIA nasce, portanto, da síntese compartilhada de uma vivência individual, mas com experiências coletivas; na qual muitas pessoas podem se enxergar, e pontos em comum podem ser identificados, sobretudo para quem sobrevive do Hip Hop e para aqueles e aquelas que em algum momento da vida precisaram migrar para encarar o desafio de viver da sua arte.
O EP, apesar de curto, é profundo no que diz respeito à forma poética e carregada das expressões da rua - envolve o cotidiano dos meninos, o corre da vida urbana, a dinâmica das transições e o coração de uma mulher em movimento. É quase um “bem-vindos ao mundo de NOMADE”, original e visceral.
O segundo lançamento do Selo Yamasse apresenta mais uma MC com assunto para versar, contundência na escrita e conversa séria - papo de adulto. O que demonstra mais uma vez que as mulheres do Hip Hop interior à dentro carregam suas verdades como princípios, e fazem valer a ideia do rap como expressão das ruas. SANTERIA canta as ruas percorridas por NOMADE, caminhando entre versos e tintas.
TRACKLIST
us meninos (prod. Aganju Uh Anti Influencer)
manga bronx ft. Dama de Copas (prod. Aganju Uh Anti Influencer)
lama (prod. Aganju Uh Anti Influencer)
FICHA TÉCNICA:
Composição e Interpretação: NOMADE
Produção Musical: Aganju Uh Anti Influencer
Mix/Master: UHPRODUTOR
Capa: NOMADE
Produção Executiva: Ana Paula Santos
Assessoria de Comunicação: Mari Ferreira
Gravação: Ibori Studio

Este projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal repassados pelo Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado.



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