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Selo Yamasse

Foto do escritor: Mari Ferreira
Mari Ferreira
29 de set.
3 min de leitura

Atualizado: 30 de set.



Breves apontamentos sobre o Selo Yamasse, por Mari Ferreira.


A cena do rap feminino baiano é brindada pelos lançamentos do Selo Yamasse. Para compreender a densidade teórica e a inovação materializada pelo Selo Yamasse, é imperativo contextualizar a linhagem histórica na qual ele se insere. O rap nacional feminino não nasce como um apêndice ou uma concessão do movimento hip hop brasileiro, ele emerge como uma ruptura interna, uma força insurgente que tensionou, desde o surgimento, as fronteiras de um território discursivo predominantemente masculino.


O Hip Hop nasceu de uma necessidade prática, da visão executiva e do senso de comunidade de uma mulher negra e adolescente chamada Cindy Campbell. Traçar essa linha histórica de 1973 nos Estados Unidos até o surgimento do Selo Yamasse na Bahia é entender que a espinha dorsal do Hip Hop sempre dependeu da gestão e do acolhimento das mulheres negras. Quando o selo baiano cria um espaço seguro e autônomo para MCs mulheres gerenciarem suas carreiras e gravarem suas músicas, ele não está inventando uma dinâmica nova, está operando na mesma frequência de Cindy Campbell. O útero da cultura Hip Hop é a visão estratégica de suas mulheres. 



A maturação do hip hop de linhagem comunitária no Brasil sempre esteve ligada à práxis política e à organização coletiva. É nessa linha de continuidade histórica e política que se insere o Selo Yamasse. Gestado a partir do Ibori Studio e do Centro Comunitário Luiz Orlando. O selo emerge como uma plataforma de produção musical e ativismo dedicada exclusivamente ao protagonismo de mulheres negras no rap.

A oralidade das MCs vinculadas ao selo resgata a fonética, a cadência, o sotaque e o vocabulário do sertão e do Recôncavo Sul baiano. Essa expressão não é um subproduto linguístico, é a afirmação do território como ferramenta de identidade e produção de conhecimento intracomunitário. O selo valida o falar interiorano como poética legítima e soberana, provando que a periferia linguística é, em si, o epicentro da criação ligado a cultura Hip Hop.


Os home studios, sobretudo o Ibori Studio, historicamente se constituem como um espaço de fugacidade negra. O complexo formado pelo Ibori Studio e o Centro Comunitário Luiz Orlando funciona como a materialização de espaços de autodefesa. Em uma região historicamente desprovida de infraestrutura fonográfica industrial, a edificação desse espaço comunitário oferece às mulheres, homens e crianças negras o território físico e político necessário para sua salvaguarda. O estúdio deixa de ser apenas uma sala de isolamento acústico comercial e passa a ser o território livre e autônomo onde essas mulheres exercem o controle sobre seus corpos, suas histórias e suas carreiras, como disciplinado por Beatriz do Nascimento, uma possibilidade nos dias de destruição.


A teórica norte-americana bell hooks argumenta que a "margem" não deve ser encarada unicamente como um local de privação e desespero criativo, mas sim como um espaço de abertura radical, criatividade e resistência política-existencial. hooks teoriza também sobre a necessidade de criação de "comunidades de cura" para enfrentar os traumas psicossociais produzidos pelo racismo.



O Selo Yamasse converte a margem geográfica (o interior da Bahia) e a margem racial em possibilidade estética e modo de vida de fuga negra. Ao estabelecer o protagonismo feminino como premissa inegociável, o selo blinda essas artistas das dinâmicas invalidação intelectual que frequentemente ocorrem em estúdios controlados pelo capital masculino branco. O ambiente produtivo do Yamasse consolida-se como a comunidade de cura de hooks: um espaço de afeto, escuta mútua e segurança psíquica, onde a vulnerabilidade pode ser expressa e transformada em rima sem as amarras do olhar vigilante do mercado. 


Na indústria fonográfica, o epistemicídio opera quando gravadoras expropriam o capital criativo das ruas, pasteurizam as mensagens políticas e reduzem as artistas a meros produtos descartáveis neoliberais. A práxis do Selo Yamasse é uma engrenagem direta de combate a este epistemicídio. Ao centralizar sob a gestão das próprias mulheres negras a cadeia produtiva, desde a composição lírica, a criação dos beats sob a ótica de produtores alinhados à sua cosmovisão, até a mixagem, masterização e distribuição independente nas plataformas digitais, o selo garante a integridade e a perenidade das narrativas dessas artistas. Elas deixam de ser objetos do discurso alheio e assumem o papel de sujeitos cognoscentes, registrando a história contemporânea de suas comunidades sem passar pelos filtros e apagamentos do mercado hegemônico.



Este projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal repassados pelo Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado.

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